05/03/2015

Como a Evolução explica o seu cansaço





Tenho um amigo que acorda todo dia às 6h, sai para correr cinco quilômetros, toma um café da manhã super equilibrado e saudável e, quando chega ao trabalho, está se sentindo relaxado, revigorado e pronto para encarar o batente.
Não suporto esse meu amigo. Simplesmente porque sou do tipo que acha que o botão "soneca" do despertador deveria ser um direito humano básico.

Não importa se me deito cedo: de manhã, nunca consigo me livrar da sensação de ter uma nuvem pairando em volta da minha cabeça.
Mas ficar cansado não é completamente culpa nossa, já que o estilo de vida que levamos nem sempre colabora para o delicado equilíbrio do nosso corpo.
'Despertador natural'


Controlado pelo ciclo circadiano, o nível de melatonina age como despertador natural

O relógio biológico que controla o sono, o chamado ciclo circadiano, é regido pela liberação de hormônios vindos da glândula pineal, localizada no centro do cérebro, entre os dois hemisférios.
Essa glândula é responsável pela produção da melatonina, o hormônio indutor do sono. A liberação desse hormônio começa por volta das 21h, trazendo uma sensação de relaxamento e de vontade de dormir.
O pico da liberação de melatonina ocorre por volta das 3h e o hormônio permanece alto no organismo por cerca de 12 horas. Sua presença começa a decair de manhã e é praticamente indetectável no meio do dia.
Esse ciclo natural é também o que regula o nível de alerta, na direção oposta: precisamos dele alto durante o dia e baixo durante a noite.
Os níveis de melatonina agem como um "despertador natural", o que explica a sensação estranha no organismo quando uma pessoa viaja por diferentes fusos horários, o chamado jet-lag.
Se na hora de dormir o nível de melatonina estiver baixo, será praticamente impossível pegar no sono, independentemente do quanto você está cansado.
O ciclo circadiano explica ainda por que é muito difícil conseguir dormir por oito horas depois de uma noite em claro. O nível de melatonina pode até estar alto quando você finalmente for para a cama, por volta das 6h. Mas o relógio biológico acaba confundindo seu organismo no meio do dia e o sono deixa de ser repousante.
Pelo mesmo motivo, é comum sentir uma segunda onda de energia quando se passa mais de 24 horas acordado.
Culpa da tecnologia?


Luz emitida por aparelhos eletrônicos pode interferir na indução ao sono

Voltando ao meu irritante amigo, o que explica seu comportamento é o fato de o ciclo circadiano ser diferente em cada indivíduo. Em alguns, os níveis de melatonina aumentam e caem mais cedo, enquanto em outras pessoas, o ciclo é mais "atrasado".
Cientistas argumentam que existem motivos evolutivos para isso. Um deles é que, assim, um agrupamento humano teria sempre alguém em estado de vigília para proteger o resto.
Pesquisadores também já demonstraram que o ciclo circadiano ocorre bem mais tarde entre os adolescentes que entre adultos. Por isso, muitos jovens "enrolam" para ir para a cama e têm uma enorme dificuldade de se levantar quando o despertador toca pela manhã. É que o ciclo circadiano desses adolescentes está fora de sincronismo com seu ciclo de sono.
Mas existe um outro problema que pode interferir em nosso relógio biológico: a tecnologia à nossa volta.
O ciclo circadiano e os níveis de melatonina são regulados pela quantidade de luz a que estamos expostos, mantendo-nos alertas durante o dia e mais relaxados e sonolentos durante a noite.
Mas hoje em dia, passamos nossos dias em espaços fechados e com pouca luz, enquanto à noite ficamos horas diante das telas iluminadas de televisões, computadores, tablets e smartphones.
Para piorar, a luz emitida por todos esses aparelhos, a chamada luz azul, tem um comprimento de onda curto. É exatamente o tipo de luz que faz com que nossos cérebros entendam que estamos no meio do dia e precisamos do maior nível de alerta possível, suprimindo o nível de melatonina.
Como ilustram os exemplos dos adolescentes e dos jet-laggers, se os níveis de melatonina não estiverem corretos, será impossível dormir.
Driblando as luzes
Mas existem alguns recursos para lidar com essa falta de sincronismo. Um deles é um aplicativo que muda a cor da tela do celular dependendo da hora, tornando-a mais escura à noite e mais clara de dia.
Ter um par de óculos com lentes cor de âmbar (entre o laranja e o amarelo) e usá-los à noite também pode ajudar a evitar que a produção natural de melatonina seja afetada.
Mas a melhor maneira de regular o sono e ter uma noite mais repousante é, segundo os cientistas, se desligar de qualquer tipo de tela cerca de uma hora antes de se deitar.
Em outras palavras: ouvir o que o seu relógio biológico está tentando dizer.

Hannah Fry - da BBC Future