21/01/2016

INTOLERÂNCIA À LACTOSE "É MODA", DIZ ENDOCRINOLOGISTA



Isabel do Carmoendocrinologista, afirma que a intolerância à lactose é apenas uma moda, para a qual não existe qualquer fundamento científico, e que resulta da influência da indústria de produção de soja.
Este é o tema sobre o qual a especialista discorreu durante o seminário “Consumo de leite e laticínios — O que pode estar a mudar”, num painel subordinado ao tema “Elogio do leite”, em janeiro de 2016, no qual explicou a relação entre o leite e a evolução do ser humano.

“O ser humano estabeleceu-se há sete mil anos com o pastoreio. Nessa altura o adulto perdia a lactase. Houve depois uma mutação no organismo dos seres humanos que passou a permitir o desdobramento da lactose”, explicou à Lusa.
A lactase é a enzima que faz a "digestão" (desdobramento) da lactose.
Isso significa que há milhares de anos os seres humanos possuem essa enzima chamada lactase, que faz a digestão da lactose, e permite ao organismo processar este açúcar presente no leite, pelo que considera que “a história da intolerância ao leite está mal contada”.
“Esta mutação tem sete mil anos e não há nenhuma outra mutação atual contrário. A intolerância é uma moda, que suspeito seja influência da indústria norte-americana de produção de soja e leite soja”, afirmou.
Devemos lembrar que não existe o tal "leite de soja", mas sim o "suco de soja" pois é um vegetal.
A médica sublinha, a propósito, que a tendência para se deixar de consumir derivados de leite também não faz sentido, visto que estes alimentos não possuem lactose.

“Quando o leite se transforma em iogurte ou queijo, mesmo para quem tenha efetivamente intolerância, deixa de haver lactose e passa a haver ácido láctico [a lactose transforma-se em ácido láctico por fermentação] e o valor nutricional mantém-se”.

"Existem mais de 1.000 tipos de queijos sendo fabricados em diversos países do mundo. Para fabricar o queijo é necessário, entre outros ingredientes, fermento lático e coalho. Entretanto, para a fabricação de alguns queijos, como o tipo suíço, o queijo roquefort, camembert, entre outros, utilizam-se microorganismos com o objetivo de produzir as características marcantes destes queijos. Entre as principais funções destas culturas bacterianas está um importante dado: estas culturas fazem o processo da glicólise – transformação da lactose em ácido lático. Em outras palavras, elas consomem a lactose reduzindo o teor de lactose de alguns queijos a quase zero. O produto da glicólise, o ácido lático, não possui lactose e portanto não causa nenhum tipo de efeito a intolerantes à lactose. Isso explica o fato de alguns tipos de queijo conterem um teor muito baixo de lactose e poderem ser consumidos sem sentirmos os sintomas da IL."
Isabel do Carmo aconselha que quem suspeitar de intolerância faça testes laboratoriais para confirmar, porque o leite tem um valor nutricional como nenhum outro, sendo um alimento completo para crianças e quase completo para o adulto.
A mesma ideia defende Pedro Graça, da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, que moderou um debate sobre os “fatos, mitos e enganos” relacionados com o consumo do leite, para quem o leite fornece “uma série de nutrientes de forma muito concentrada”.
O ponto de partida do debate foi o decréscimo do consumo de leite e laticínios em Portugal e na Europa, e tentar perceber o que leva algumas pessoas a terem receio de consumir leite.
Existem três perspetivas: a saúde, com as intolerâncias; o ambiente, com o impacto que as vacas têm no consumo de energia e na produção de gases com efeito de estufa, e os direitos dos animais, com as condições em que são criados.
As questões de saúde foram as mais discutidas, porque, do ponto de vista alimentar, é um “excelente alimento”, que permite a produção de derivados e a sua utilização para diversos fins culinários, e, do ponto de vista nutricional, fornece proteínas, vitaminas e minerais de elevada qualidade e baixo valor energético – “dois copos de leite fornecem um terço das necessidades diárias de uma pessoa”.
Além disso, é possível hoje em dia extrair a gordura (saturada) do leite, reduzindo os riscos para a saúde, essencialmente cardiovasculares, associados ao seu consumo.
“O leite é também um produto relativamente barato, o que é importante numa situação de grandes desigualdades sociais. O leite é democrático, acessível a todos os bolsos”, acrescentou o também diretor do Programa Nacional de Alimentação Saudável.
O responsável lembrou que, recentemente, o leite surge associado ao risco de desenvolvimento de alguns tipos de cancro, quando há um consumo elevado e regular, mas sublinha que esta é apenas uma “hipótese de trabalho que não está validada cientificamente”.
Relativamente à intolerância à lactose, Pedro Graça salienta que sempre houve e continuará havendo, mas o especialista não tem certezas de que a porcentagem de pessoas com intolerância esteja aumentando, a não ser que, no seu conjunto, as alergias estejam aumentando.
“O que não sabemos das alergias é a relação entre o hospedeiro e as substâncias agressoras. O que sabemos é que estamos em mudança do ponto de vista ambiental. Há substâncias novas ligadas ao alimento e à produção alimentar, como conservantes e aditivos, mas também o ar que respiramos. Tudo junto pode originar um conjunto de casos”.
Para o especialista, entre prós e contras, o importante é que os consumidores tenham informação correta e possam, esclarecidamente, fazer as suas escolhas.



Adaptado de: http://www.dinheirovivo.pt/